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Luto migratório: por que morar fora pode ser tão difícil

Foto do escritor: Carolina Braz
Carolina Braz
há 3 horas
9 min de leitura
Pessoa triste no aeroporto representando a tristeza em imigrar

Você escolheu morar fora.


Talvez tenha planejado por anos. Talvez tenha sido uma oportunidade de trabalho, um relacionamento, um sonho antigo ou a busca por uma vida diferente.


E, em muitos aspectos, a vida nova está dando certo.


Mesmo assim, alguma coisa pesa.


Uma saudade que aparece do nada no supermercado. Um cansaço que parece não passar. A sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum. Uma tristeza que você não consegue explicar — afinal, "foi você que quis".


"Eu deveria estar feliz. Por que estou me sentindo assim?"


"Todo mundo acha que estou vivendo um sonho."


"Se eu reclamar, vão dizer que é só voltar."


Se você se reconheceu, talvez seja importante começar por aqui:


Sentir dificuldade depois de migrar não significa que a sua escolha foi errada.


Mudar de país pode ser uma conquista e, ao mesmo tempo, envolver perdas importantes.


É justamente essa combinação que ajuda a compreender o chamado luto migratório.


O que é o luto migratório?


Quando pensamos em luto, geralmente pensamos na morte de alguém querido.


Mas a experiência de luto também pode estar relacionada a outras perdas significativas.


Na migração, essas perdas nem sempre são definitivas — e é justamente isso que pode tornar a experiência tão particular.


Ao mudar de país, você pode deixar para trás pessoas, lugares, hábitos, referências culturais, uma rede de apoio e até uma versão de si mesmo(a) que existia naquele contexto.


Estudos sobre migração e saúde mental descrevem diferentes dimensões de perda que podem estar presentes na experiência migratória. Entre elas estão:

  • a família e os amigos que ficaram;

  • a língua materna e a facilidade de se expressar sem precisar traduzir pensamentos;

  • a cultura, incluindo costumes, humor, comida e formas de relacionamento;

  • a terra, com suas paisagens, clima, cheiros e referências;

  • o status social e profissional;

  • o grupo de pertencimento;

  • determinadas condições de segurança e estabilidade.


Isso não significa que toda pessoa que migra experimentará todos esses aspectos da mesma maneira.


A experiência depende da história de cada pessoa, das condições da migração, da rede de apoio, do país de destino e de muitos outros fatores.


Mas reconhecer essas perdas pode ajudar a compreender por que uma mudança desejada também pode ser emocionalmente exigente.


Por que esse luto pode ser tão confuso?


O luto migratório tem uma característica particular: muitas das coisas que foram perdidas continuam existindo.


A literatura descreve esse tipo de experiência como perda ambígua: uma perda que não tem um fim claro, porque aquilo que foi perdido continua existindo de alguma forma.


A migração é um dos exemplos usados para ilustrar esse conceito.


As pessoas continuam lá


Sua família continua existindo.


Seus amigos continuam vivendo suas vidas.


Sua cidade continua no mapa.


Você pode telefonar, fazer chamadas de vídeo, visitar e, em algum momento, até voltar.


Por isso, pode parecer estranho dizer que existe uma perda.


Mas existe uma diferença importante entre ter acesso a alguém e compartilhar a vida cotidiana com essa pessoa.


Você pode continuar conversando com sua mãe todos os dias e, ainda assim, sentir falta de tomar um café com ela.


Pode visitar sua cidade e, ainda assim, perceber que não participa mais da rotina daquele lugar.


O que foi perdido muitas vezes não é a existência daquilo, mas a presença cotidiana.


Família em videochamada com parentes no Brasil, representando a distância do luto migratório

Ele não acontece de forma linear


Você pode passar semanas se sentindo bem e, de repente, uma situação despertar uma saudade intensa.


Um aniversário.


Uma comida.


Uma música.


Uma notícia da família.


Uma visita ao Brasil.


Uma dificuldade burocrática.


Uma conversa em que você percebe que não conseguiu explicar exatamente o que queria dizer.


Isso não significa necessariamente que você "voltou para o começo".


Algumas perdas continuam fazendo parte da experiência de viver longe e podem ser reativadas em diferentes momentos.


Ele pode coexistir com coisas boas


Talvez essa seja uma das partes mais difíceis de aceitar.


Você pode gostar da sua nova cidade e sentir falta da antiga.


Pode estar feliz com a decisão de ter migrado e sentir saudade.


Pode amar a sua vida atual e, ainda assim, sentir falta de partes importantes da vida que deixou para trás.


Essas experiências não são necessariamente contraditórias.


É possível querer estar onde você está e sentir falta de onde esteve.


Como o luto migratório pode aparecer?


Nem sempre a experiência aparece como uma tristeza evidente.


Às vezes, ela se manifesta de maneiras mais silenciosas:

  • cansaço frequente;

  • irritabilidade ou menor tolerância às dificuldades do cotidiano;

  • dificuldade para dormir;

  • sensação de estar sempre "traduzindo" a si mesmo(a);

  • preocupação intensa com pessoas que ficaram;

  • comparação constante entre "aqui" e "lá";

  • sensação de não pertencer completamente;

  • vontade frequente de voltar, mesmo sem ter certeza de que deseja voltar;

  • sensação de estar vivendo uma vida provisória;

  • dificuldade para construir novos vínculos;

  • solidão, mesmo quando existe contato social.


Essas experiências podem fazer parte da adaptação à vida em outro país.


O que merece atenção é quando o sofrimento se torna intenso, persistente ou começa a interferir de maneira significativa no trabalho, nos relacionamentos, no autocuidado ou na capacidade de aproveitar a vida.


Luto migratório não é o mesmo que depressão


É importante fazer essa distinção.


Luto migratório não é um diagnóstico psiquiátrico.


O termo é utilizado para descrever as perdas e os processos emocionais associados à migração. Ele não significa, por si só, que uma pessoa tenha um transtorno mental.


Ao mesmo tempo, migrar pode acontecer em condições que aumentam o sofrimento psicológico.


Isolamento social, dificuldades financeiras, insegurança documental, discriminação, barreiras linguísticas, dificuldades profissionais e ausência de rede de apoio podem tornar a adaptação mais difícil.


Em algumas pessoas, sintomas de ansiedade ou depressão podem surgir ou se intensificar nesse contexto.


Por isso, mais importante do que perguntar apenas "isso é luto migratório?", é observar quanto sofrimento existe, há quanto tempo ele está presente e quanto está interferindo na vida da pessoa.


Alguns sinais merecem atenção especial:

  • tristeza persistente durante a maior parte dos dias;

  • perda importante de interesse ou prazer;

  • sensação intensa de vazio ou desesperança;

  • isolamento cada vez maior;

  • alterações significativas no sono ou no apetite;

  • dificuldade importante para trabalhar ou cuidar de si;

  • pensamentos de morte ou de que não vale a pena continuar.


Nessas situações, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo.


Uma barreira de controle de passaporte representando a barreira do morar fora

Quando morar fora mexe com a identidade


Existe ainda uma dimensão da migração que nem sempre é lembrada: quem você era no seu país de origem pode não ser exatamente quem você consegue ser no novo país.


Sua profissão pode ser reconhecida de outra maneira.


Seu idioma pode limitar a espontaneidade.


Seu círculo social pode diminuir.


Coisas que antes eram automáticas passam a exigir esforço.


Até situações simples — resolver um problema, fazer uma ligação, marcar uma consulta ou conversar com alguém desconhecido — podem demandar uma energia que antes você nem percebia que estava utilizando.


Isso pode produzir uma sensação estranha:


"Eu sei quem eu sou, mas parece que ainda não consigo ser completamente essa pessoa aqui."


Para algumas pessoas, essa experiência pode afetar autoestima, autonomia, sensação de competência e pertencimento.


E quando você sente que deveria estar feliz?


Essa é uma frase que aparece com frequência:


"Mas eu escolhi isso."


Como se escolher uma mudança significasse assumir um compromisso de nunca mais sofrer por causa dela.


Mas escolhas importantes podem envolver ganhos e perdas ao mesmo tempo.


Você pode ter conquistado segurança, novas oportunidades ou uma qualidade de vida desejada e, ainda assim, sentir falta da família.


Pode ter realizado o sonho de morar fora e descobrir que a realização não eliminou a saudade.


Pode estar exatamente onde queria estar e atravessar uma fase difícil.

Uma coisa não invalida a outra.


O sofrimento não precisa ser usado como prova de que a decisão foi errada.


O que costumo observar no consultório


Uma frase que aparece com frequência entre brasileiros que moram fora é:


"Eu não tenho do que reclamar."


Às vezes, essa frase funciona quase como uma autorização que a pessoa espera receber para poder admitir que está sofrendo.


"Tenho trabalho."


"Tenho uma casa."


"Eu quis vir."


"Minha família está bem."

"Tem gente em situação muito pior."


Tudo isso pode ser verdade.


E ainda assim você pode estar cansado(a).


Pode estar sozinho(a).


Pode sentir saudade.


Pode estar com dificuldade para se adaptar.


Reconhecer isso não significa desvalorizar as conquistas da vida nova.


Significa apenas reconhecer que adaptação também exige elaboração emocional.


Como a terapia pode ajudar?


A terapia pode oferecer um espaço para compreender essas experiências sem transformar automaticamente a dificuldade em sinal de fracasso.


Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, o trabalho pode envolver:

  • identificar as perdas que estão sendo vivenciadas;

  • reconhecer pensamentos de culpa e autocobrança, como "eu deveria estar feliz";

  • observar padrões de comparação entre a vida atual e a anterior;

  • trabalhar pensamentos rígidos sobre adaptação e pertencimento;

  • desenvolver estratégias para construir e fortalecer uma rede de apoio;

  • encontrar maneiras possíveis de manter vínculos importantes com quem ficou;

  • lidar com ansiedade, solidão ou sintomas depressivos quando estiverem presentes;

  • desenvolver uma relação mais flexível com as diferentes partes da própria identidade.


A terapia também pode ajudar a diferenciar duas perguntas que às vezes ficam misturadas:


"Estou sofrendo porque migrar foi difícil?"


e


"Estou sofrendo porque a vida que construí aqui não está funcionando para mim?"

As respostas podem ser diferentes — e não precisam ser encontradas imediatamente.


Para quem mora fora, falar na própria língua também importa


Quando você mora em outro país, existe uma camada adicional na experiência terapêutica: poder falar sobre situações complexas na sua língua materna.


Não se trata apenas de compreender palavras.


Humor, ironia, referências culturais, formas de expressar afeto, vergonha, raiva ou vulnerabilidade também fazem parte da comunicação.


Ter um espaço em português pode facilitar que determinadas experiências sejam elaboradas com mais precisão e liberdade.


Para brasileiros que vivem fora, a terapia online pode permitir justamente essa continuidade de cuidado, independentemente do país em que estejam.


Em resumo


✔ O luto migratório descreve as perdas e os processos emocionais que podem acompanhar a experiência de migrar.

✔ Ele pode acontecer mesmo quando a mudança foi desejada e trouxe conquistas importantes.

✔ É possível gostar da vida nova e sentir falta da antiga ao mesmo tempo.

✔ As perdas migratórias podem ser reativadas em diferentes momentos, especialmente diante de datas, notícias, visitas ou dificuldades.

✔ Sentir saudade não significa automaticamente que você deveria voltar.

✔ Luto migratório não é, por si só, um diagnóstico de depressão ou ansiedade.

✔ Quando o sofrimento se torna intenso, persistente ou interfere significativamente na vida, buscar avaliação profissional pode ser importante.


Um convite à reflexão


Talvez você tenha começado esta leitura se perguntando:


"Por que eu não consigo simplesmente ser feliz aqui?"


Talvez uma pergunta mais gentil seja:


"O que eu deixei para trás e como posso cuidar dessas perdas enquanto construo a minha vida nova?"


Sentir falta não anula a sua escolha.


E estar feliz com a vida que você construiu não exige esquecer a vida que ficou para trás.


Às vezes, adaptar-se não significa deixar de sentir saudade.


Significa aprender a carregar algumas saudades enquanto cria novos lugares de pertencimento.


Perguntas frequentes


Quanto tempo dura o luto migratório?


Não existe um prazo fixo.


A experiência varia conforme a história da pessoa, as condições da migração, a rede de apoio, o país de destino e outros fatores.


Para algumas pessoas, determinadas perdas ficam mais intensas no início. Para outras, sentimentos de saudade e não pertencimento podem reaparecer em diferentes momentos da vida no exterior.


Sentir saudade significa que eu deveria voltar?


Não necessariamente.


Saudade é uma informação sobre aquilo que é importante para você, mas não determina sozinha qual decisão deve ser tomada.


A decisão de permanecer, voltar ou mudar novamente envolve outros aspectos da vida e pode ser pensada com calma.


Terapia online funciona para quem mora fora?


A psicoterapia por videoconferência pode ser uma alternativa viável para muitas pessoas e permite manter o acompanhamento em português enquanto se vive em outro país.


A adequação do formato depende das necessidades de cada pessoa e das regras profissionais e legais aplicáveis ao local onde o paciente está.


Luto migratório é uma doença?


Não. Luto migratório é um conceito utilizado para descrever processos de perda e adaptação relacionados à migração; não é, por si só, um diagnóstico psiquiátrico.


Isso não significa que o sofrimento deva ser minimizado. Quando sintomas de ansiedade, depressão ou outras dificuldades se tornam intensos ou persistentes, uma avaliação profissional pode ser importante.


Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação psicológica ou médica. Se você estiver em situação de crise ou risco de se machucar, procure imediatamente um serviço de emergência da sua região ou um serviço de apoio especializado.


Você não precisa atravessar isso sozinho(a)


Se morar fora tem sido mais difícil do que você imaginava, a terapia pode ser um espaço para compreender essas perdas, cuidar do sofrimento e construir recursos para a vida no novo país.


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Referências

  • ACHOTEGUI, J. Migración y salud mental. El síndrome del inmigrante con estrés crónico y múltiple (síndrome de Ulises). Zerbitzuan, n. 46, p. 163-171, 2009.

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5. ed. Arlington: American Psychiatric Association, 2013.

  • BERRY, J. W. Immigration, acculturation, and adaptation. Applied Psychology, v. 46, n. 1, p. 5-34, 1997. DOI: 10.1111/j.1464-0597.1997.tb01087.x.

  • BOSS, P. Ambiguous loss: learning to live with unresolved grief. Cambridge: Harvard University Press, 1999.

  • RENNER, A.; SCHMIDT, V.; KERSTING, A. Migratory grief: a systematic review. Frontiers in Psychiatry, v. 15, 1303847, 2024. DOI: 10.3389/fpsyt.2024.1303847.



 
 
 

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