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Morar fora: como a imigração pode afetar a saúde mental, os relacionamentos e a sexualidade

Foto do escritor: Carolina Braz
Carolina Braz
há 3 dias
10 min de leitura

Atualizado: há 22 horas

Pessoa olhando pela janela de uma cidade estrangeira, pensativa

Mudar de país pode ser uma experiência transformadora. Para algumas pessoas, significa conquistar mais liberdade, novas oportunidades, segurança, autonomia ou simplesmente a possibilidade de construir uma vida diferente.


Mas existe uma parte dessa experiência que nem sempre aparece nas fotos da mudança, nas conquistas profissionais ou nas histórias de quem "deu certo" fora do país de origem: o impacto emocional de começar uma vida nova longe das referências conhecidas.


Morar fora não significa necessariamente estar mal. Mas pode envolver a adaptação a uma nova língua, cultura, rotina, sistema de trabalho, rede social e formas de se relacionar — enquanto se lida com a saudade daquilo que ficou para trás.


Para algumas pessoas, esse processo pode aparecer como ansiedade, solidão, irritabilidade, dificuldade para dormir, sensação de não pertencimento ou mudanças na autoestima. Para outras, pode afetar principalmente os relacionamentos ou a vida sexual.


E nem sempre é fácil perceber que essas mudanças estão relacionadas à experiência de viver fora.


Mudar de país também é mudar de referências


Quando vivemos durante muito tempo em determinado lugar, aprendemos maneiras de falar, trabalhar, fazer amizades, demonstrar afeto, estabelecer limites e interpretar o comportamento das outras pessoas.


Grande parte disso acontece de maneira automática.


Ao mudar de país, algumas dessas referências deixam de funcionar exatamente da mesma maneira.


Uma brincadeira pode não ser compreendida. Uma forma de demonstrar interesse pode ter outro significado. Uma maneira considerada educada no Brasil pode ser interpretada de forma diferente em outro contexto cultural.


Até tarefas aparentemente simples — resolver uma questão burocrática, procurar um médico, fazer uma entrevista de emprego ou conhecer pessoas novas — podem exigir muito mais energia mental.


Esse processo de adaptação cultural pode envolver o chamado estresse de aculturação, relacionado às demandas de conciliar referências culturais diferentes e construir uma vida no novo contexto.


Pesquisas sobre migração e saúde mental mostram que fatores como domínio da língua, dificuldades financeiras, integração social e a forma como a pessoa consegue se posicionar entre sua cultura de origem e a cultura de destino podem influenciar essa adaptação.


Por isso, adaptar-se não precisa significar deixar de ser quem você era.


O luto migratório: sentir falta e, ao mesmo tempo, gostar da nova vida


Uma das experiências que podem acompanhar a migração é o chamado luto migratório.


Não se trata necessariamente da perda definitiva de uma pessoa ou de um lugar. A mudança de país pode envolver perdas de rotina, referências culturais, relações próximas, papéis sociais, identidade profissional e sensação de pertencimento.


Você pode continuar falando com sua família todos os dias e, ainda assim, sentir falta de estar presente.


Pode acompanhar o nascimento de um sobrinho por vídeo, mas não participar daquele momento.


Pode ter amigos no Brasil que continuam sendo importantes para você, mas perceber que a relação mudou porque a vida cotidiana deixou de ser compartilhada.


Também pode sentir falta de coisas que pareciam pequenas: uma comida, um jeito de conversar, determinados lugares, espontaneidade, referências culturais ou simplesmente a sensação de saber como as coisas funcionam.


Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou associação entre luto migratório e sofrimento psicológico, embora os autores ressaltem que a evidência disponível ainda é limitada e baseada principalmente em estudos transversais.


Existe, portanto, uma experiência que pode ser difícil de explicar:

você pode sentir saudade e, ao mesmo tempo, estar feliz por ter ido embora.


Pode amar a vida que construiu e ainda sentir falta da anterior.


Pode ter certeza de que não quer voltar e, mesmo assim, sentir tristeza.


Essas experiências não são contraditórias.


É possível estar vivendo uma conquista e, simultaneamente, elaborando perdas.


Quando a adaptação começa a pesar na saúde mental


A experiência de morar fora pode se tornar mais desgastante quando se soma a outras fontes de estresse: dificuldades financeiras, instabilidade profissional, problemas relacionados à documentação, discriminação, barreiras linguísticas, isolamento social ou ausência de uma rede de apoio.


A Organização Mundial da Saúde destaca que a saúde de pessoas migrantes é influenciada por diversos determinantes sociais, culturais e econômicos, incluindo condições de trabalho e moradia, renda, discriminação, barreiras linguísticas e culturais, situação migratória e acesso aos serviços de saúde.


Nesse contexto, podem aparecer:

  • ansiedade ou preocupação constante;

  • sensação de estar sempre em estado de alerta;

  • dificuldade para dormir;

  • irritabilidade;

  • cansaço persistente;

  • tristeza ou desânimo;

  • isolamento;

  • perda de motivação;

  • sensação de não pertencimento;

  • queda da autoestima;

  • dificuldade de concentração;

  • necessidade excessiva de controlar as coisas.


Isso não significa que toda dificuldade de adaptação seja um transtorno psicológico.


Sentir saudade, insegurança ou cansaço durante uma mudança importante pode fazer parte de uma adaptação esperada.


A questão é observar a intensidade, a duração e o impacto desses sentimentos na vida cotidiana.


E também lembrar que pessoas migrantes não formam um grupo homogêneo: as experiências variam muito de acordo com as condições da migração, recursos pessoais e sociais, contexto de vida e características do país de origem e de destino. A migração pode, inclusive, estar associada a experiências positivas e novas oportunidades.


"Eu era uma pessoa diferente no Brasil"


Uma mudança de país também pode mexer profundamente com a identidade.


No Brasil, você talvez tivesse uma carreira consolidada, uma rede de amigos, reconhecimento profissional, autonomia financeira ou um determinado lugar dentro da família.


Fora, pode ser necessário reconstruir parte disso.


Talvez sua formação profissional não seja imediatamente reconhecida.


Talvez você precise trabalhar em uma área diferente.


Talvez ainda não consiga se expressar na nova língua com a mesma segurança que tinha em português.


Talvez tenha se tornado mais dependente do parceiro ou da família durante o período de adaptação.


Tudo isso pode afetar a percepção que você tem de si mesma.


É possível surgir uma sensação difícil de explicar:


"Eu sei quem eu era, mas ainda não sei exatamente quem estou me tornando."


Essa experiência não precisa ser interpretada como fracasso.

Construir uma nova identidade em outro país pode ser um processo gradual, que envolve preservar partes de quem você era, transformar outras e desenvolver aspectos que talvez nem existissem antes da mudança.


A literatura sobre aculturação sugere justamente que a relação entre identidade, integração cultural e saúde mental é complexa e não pode ser reduzida à ideia de simplesmente "se adaptar" à cultura de destino.


Casal em momento de tensão silenciosa durante processo de adaptação

E os relacionamentos? A mudança também chega à vida a dois


Quando uma pessoa migra acompanhada, a mudança pode aproximar o casal — mas também pode criar novas tensões.


Isso acontece porque duas pessoas podem viver a mesma mudança de maneiras muito diferentes.


Enquanto uma pode se sentir realizada, a outra pode estar solitária.


Uma pode adaptar-se rapidamente à nova cultura, enquanto a outra pode sentir que perdeu referências importantes.


Uma pode estar profissionalmente melhor do que antes, enquanto a outra enfrenta frustração ou perda de autonomia.


Além disso, a divisão de tarefas pode mudar.


A dependência financeira pode aumentar.


A rede de apoio pode diminuir.


E o casal pode passar a ocupar um espaço muito maior na vida um do outro justamente porque outras relações ficaram mais distantes.


Por isso, problemas que já existiam podem ficar mais evidentes depois da mudança.


E conflitos que antes eram pequenos podem ganhar uma dimensão maior quando o casal está cansado, isolado e tentando construir uma vida nova.


Também pode acontecer o contrário: enfrentar juntos uma mudança importante pode fortalecer a parceria, especialmente quando existe comunicação, apoio mútuo e espaço para que cada pessoa viva a própria adaptação.


Morar fora pode afetar a sexualidade?


Sim — e esse é um aspecto que muitas vezes recebe pouca atenção.


A sexualidade não acontece separada do restante da vida.


Desejo, excitação, prazer e intimidade são influenciados por fatores emocionais, relacionais, físicos e contextuais.


Quando a pessoa está constantemente preocupada com trabalho, dinheiro, documentação, idioma, adaptação ou solidão, pode sobrar menos espaço mental para a sexualidade.


Por isso, algumas pessoas percebem mudanças como:

  • redução do desejo sexual;

  • maior dificuldade de se excitar;

  • dificuldade para chegar ao orgasmo;

  • aumento da ansiedade durante o sexo;

  • dificuldade de relaxar;

  • redução da frequência das relações;

  • sensação de distanciamento do próprio corpo;

  • mudanças na satisfação sexual.


Essas mudanças não significam necessariamente que a imigração seja a causa direta de uma dificuldade sexual. O mais adequado é olhar para o conjunto de fatores que mudou na vida da pessoa.


O próprio contexto de migração pode envolver mudanças importantes no acesso a serviços de saúde, barreiras linguísticas e culturais e diferentes condições sociais, fatores que também podem repercutir na saúde sexual e reprodutiva.


Além disso, a mudança de país pode alterar a dinâmica do relacionamento.


O casal pode estar mais cansado, ter menos privacidade, viver conflitos com maior frequência ou sentir que a relação sexual se tornou mais uma obrigação em meio a tantas outras demandas.


E existe ainda uma questão cultural.


Mudar de país pode colocar a pessoa em contato com diferentes formas de falar sobre corpo, gênero, sexualidade, relacionamento e intimidade. Isso pode abrir novas possibilidades — mas também pode gerar conflitos entre valores aprendidos anteriormente e novas experiências.


Por isso, quando a sexualidade muda depois da imigração, nem sempre faz sentido olhar apenas para o sintoma sexual.


Às vezes, é preciso olhar para a vida que essa pessoa está tentando construir ao redor dele.


Pessoa em meio a uma multidão, sensação de solidão

A solidão de quem está cercado de pessoas


Existe uma diferença importante entre estar sozinho e sentir-se sozinho.


Você pode morar em uma cidade cheia, trabalhar com outras pessoas, ter um parceiro e ainda assim sentir que não tem ninguém com quem possa compartilhar determinadas experiências.


A amizade também precisa ser reconstruída.


E isso pode ser especialmente difícil para adultos que, no Brasil, já tinham uma rede consolidada.


Criar vínculos depois de adulto exige tempo, disponibilidade e repetição — justamente recursos que podem estar reduzidos durante a fase de adaptação.


A literatura sobre saúde de migrantes destaca o papel das redes sociais, do pertencimento e das condições de integração, enquanto estudos sobre o contexto pós-migração identificam solidão, discriminação, dificuldades linguísticas e falta de suporte social entre fatores que podem estar relacionados ao sofrimento psicológico.


Por isso, construir uma vida fora não envolve apenas encontrar trabalho e moradia.


Também envolve, aos poucos, construir pertencimento.


Preciso me adaptar ou preservar quem eu sou?


Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para quem mora fora.


É possível aprender uma nova língua sem abandonar a língua materna.


Conhecer novos costumes sem considerar sua cultura de origem inferior.


Criar novas amizades sem deixar de valorizar as antigas.


Mudar alguns hábitos sem sentir que precisa apagar sua história.


Adaptar-se não significa assimilar tudo.


E preservar sua identidade não significa rejeitar a nova cultura.


Uma adaptação saudável pode envolver justamente a possibilidade de transitar entre diferentes referências sem precisar escolher uma única versão de si mesma.


A pesquisa sobre aculturação sugere que estratégias de integração — que permitem algum contato tanto com a cultura de origem quanto com a cultura de destino — podem estar associadas a melhores indicadores de saúde mental do que experiências marcadas por marginalização ou isolamento. Ainda assim, esses processos são complexos e variam de acordo com o contexto de cada pessoa.


Quando procurar ajuda psicológica?


Nem toda dificuldade relacionada à imigração precisa de psicoterapia.


Mas vale considerar buscar ajuda quando o sofrimento começa a interferir de maneira significativa na sua vida.


Por exemplo, quando você percebe que:

  • está constantemente ansioso ou em estado de alerta;

  • perdeu o prazer em atividades que antes gostava;

  • sente-se muito isolado;

  • não consegue se adaptar à nova rotina;

  • está vivendo conflitos frequentes no relacionamento;

  • sente que sua autoestima mudou muito depois da mudança;

  • tem dificuldade de lidar com a saudade ou a culpa pela distância;

  • percebe alterações persistentes na vida sexual;

  • sente que perdeu a conexão consigo mesmo;

  • está constantemente pensando em voltar, mas não consegue entender exatamente o que está faltando;

  • ou, ao contrário, sabe que quer ficar, mas está sofrendo intensamente com a experiência.


A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender o que está acontecendo sem reduzir tudo a "problemas de adaptação".


Às vezes, o que parece ser apenas saudade pode envolver solidão.


O que parece falta de libido pode estar relacionado à sobrecarga.


O que parece um problema de relacionamento pode estar sendo agravado pelo isolamento e pelas mudanças de papéis.


E aquilo que parece "não estar dando conta" pode ser, na verdade, uma pessoa tentando sustentar mudanças demais ao mesmo tempo.


Morar fora não precisa significar se perder de si


Mudar de país pode ser uma das experiências mais importantes da vida.


Pode trazer crescimento, liberdade, novas relações e oportunidades que talvez não existissem antes.


Mas também pode exigir a elaboração de perdas, a reconstrução de vínculos e uma nova definição de quem você é.


Não existe uma única maneira correta de viver essa experiência.


Você não precisa estar feliz o tempo todo porque escolheu morar fora.


Também não precisa concluir que tomou a decisão errada só porque está passando por uma fase difícil.


Talvez parte da adaptação seja justamente aprender a construir uma vida nova sem precisar abandonar as partes de você que continuam fazendo sentido.


E, em alguns momentos, ter um espaço para falar sobre tudo isso na sua própria língua pode fazer diferença.


Entre em contato e agende uma consulta.


Perguntas frequentes


Morar fora pode causar ansiedade?


Mudar de país, por si só, não significa que uma pessoa desenvolverá um transtorno de ansiedade. Porém, o processo migratório pode envolver mudanças, incertezas, isolamento, dificuldades financeiras, barreiras linguísticas e perda de rede de apoio, fatores que podem aumentar o estresse e, em algumas pessoas, contribuir para sintomas de ansiedade.


O que é luto migratório?


É uma forma de descrever as perdas e mudanças emocionais que podem acompanhar a migração. Pode envolver saudade da família, amigos, lugares, rotina, cultura, idioma, identidade profissional e sensação de pertencimento. Não significa necessariamente que a pessoa queira voltar para o país de origem. Uma revisão sistemática recente encontrou associação entre luto migratório e sofrimento psicológico, embora ainda exista necessidade de mais pesquisas sobre o tema.


Morar fora pode afetar o relacionamento?


Sim. A mudança pode alterar a divisão de responsabilidades, a situação financeira, a rede de apoio, a rotina e a dinâmica do casal. Além disso, cada parceiro pode se adaptar de maneira diferente, o que pode aumentar conflitos ou distanciamento — embora uma experiência compartilhada de mudança também possa fortalecer a parceria.


Por que minha libido diminuiu depois que fui morar fora?


O desejo sexual pode ser influenciado por estresse, cansaço, ansiedade, mudanças na rotina, conflitos relacionais, sono e diversos outros fatores. Quando a diminuição da libido aparece após uma mudança de país, é importante considerar o contexto geral da vida, e não apenas a sexualidade isoladamente.


É normal gostar de morar fora e sentir saudade do Brasil?


Sim. Sentir saudade não significa necessariamente que você não esteja feliz com a decisão de morar fora. É possível construir uma vida satisfatória em outro país e, ao mesmo tempo, sentir falta de pessoas, lugares, hábitos e referências que ficaram no Brasil.


A psicoterapia pode ajudar quem mora fora do Brasil?


Pode. A psicoterapia pode ajudar a compreender questões relacionadas à adaptação, ansiedade, identidade, autoestima, relacionamentos, solidão, saudade e sexualidade. Para brasileiros que vivem no exterior, fazer terapia em português também pode facilitar a expressão de experiências e emoções complexas na língua materna.


Referências


  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. World report on the health of refugees and migrants. Geneva: World Health Organization, 2022.

  • HORNE, C. V. Acculturation and Mental Health: A Scoping Review. Creative Nursing, v. 30, n. 1, p. 29-36, 2024. DOI: 10.1177/10784535241229146.

  • RENNER, A.; SCHMIDT, V.; KERSTING, A. Migratory grief: a systematic review. Frontiers in Psychiatry, v. 15, 1303847, 2024. DOI: 10.3389/fpsyt.2024.1303847.

  • BALIDEMAJ, A.; SMALL, M. The effects of ethnic identity and acculturation in mental health of immigrants: a literature review. International Journal of Social Psychiatry, v. 65, n. 7-8, p. 643-655, 2019. DOI: 10.1177/0020764019867994.

  • PÉREZ-SÁNCHEZ, M.; IMMORDINO, P.; ROMANO, G.; GIORDANO, A.; GARCÍA-GIL, C.; MORALES, F. Access of migrant women to sexual and reproductive health services: A systematic review. Midwifery, v. 139, 104167, 2024. DOI: 10.1016/j.midw.2024.104167.

  • KEYGNAERT, I. et al. Sexual and reproductive health of migrants: does the EU care? Health Policy, v. 114, n. 2-3, p. 215-225, 2014. DOI: 10.1016/j.healthpol.2013.10.007.

 
 
 

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