top of page

Masturbação: o que ela pode ensinar sobre sua sexualidade

Foto do escritor: Carolina Braz
Carolina Braz
há 40 minutos
9 min de leitura
Mão encostada em um vidro embaçado com gotas de água, simbolizando intimidade e autoconhecimento

Você já se sentiu culpado(a) depois de se masturbar?


Talvez tenha crescido ouvindo que era errado, sujo ou pecado. Talvez hoje esteja em um relacionamento e se pergunte se ainda "pode". Ou talvez nunca tenha se masturbado e sinta curiosidade, mas também vergonha.


Se você se identificou com alguma dessas situações, saiba que não está sozinho(a).


A masturbação ainda é um dos temas cercados de silêncio, mesmo entre adultos.


E, para muitas pessoas, pode ser uma das formas de conhecer melhor o próprio corpo, perceber como a excitação acontece e compreender preferências que podem fazer parte da própria sexualidade.


Mas isso não significa que exista uma maneira "certa" de se masturbar — ou que toda pessoa precise fazê-lo.


Masturbação faz mal?


Essa ainda é uma das perguntas mais comuns.


De modo geral, a masturbação é considerada uma prática sexual comum e não prejudicial para a maioria das pessoas.


Ela não causa infertilidade, não "gasta" o desejo sexual, não provoca cegueira e não significa imaturidade ou falta de interesse por outras pessoas.


Ainda assim, muitos mitos continuam influenciando a forma como as pessoas se relacionam com o próprio corpo e com o prazer.


"Isso é coisa de quem não tem com quem transar."


"Se eu me masturbo, é porque alguma coisa está faltando no meu relacionamento."


"Mulher que se masturba não é uma mulher direita."


"Homem que precisa se masturbar está insatisfeito com a parceira."


Frases como essas podem ser aprendidas muito cedo, dentro da família, da religião, da cultura ou de outras experiências sociais.


Mesmo quando a pessoa deixa de acreditar conscientemente nelas, essas ideias podem continuar associadas a sentimentos de culpa, vergonha ou medo.

Por isso, falar sobre masturbação não é apenas falar sobre um comportamento sexual.


Também é falar sobre como aprendemos a olhar para o próprio corpo e para o próprio prazer.


O que a masturbação pode ensinar sobre sua sexualidade?


A masturbação pode ser uma forma de autoconhecimento, mas o que ela revela não é apenas "do que você gosta".


Ela também pode ajudar a perceber como você entra em contato com o prazer, a excitação e as próprias sensações.


Como o seu corpo responde


Ao explorar o próprio corpo, algumas pessoas passam a perceber melhor o que favorece a excitação, o que a interrompe e como as sensações se modificam ao longo da experiência.


Isso pode ser especialmente útil para quem tem dificuldade de identificar o que gosta ou de comunicar preferências ao parceiro ou à parceira.


Mas não existe uma fórmula universal.


O que funciona em determinado momento pode mudar em outro, e aquilo que é prazeroso sozinho pode não ser exatamente o que funciona durante uma relação sexual.


O que facilita ou dificulta a excitação


A resposta sexual não depende apenas do toque.


Pensamentos, emoções, privacidade, segurança, estresse, cansaço, vergonha e expectativas também podem influenciar a experiência.


Por isso, a masturbação pode ajudar a perceber perguntas como:


"O que acontece comigo quando tento relaxar?"


"Consigo prestar atenção às sensações ou fico pensando em terminar logo?"


"Tenho dificuldade de me permitir sentir prazer?"


Essas observações podem ser mais importantes do que descobrir uma técnica específica.


Como você se relaciona com o prazer


A forma como a pessoa se masturba também pode trazer pistas sobre sua relação com a própria sexualidade.


Existe culpa?


Pressa?


Necessidade de esconder?


Dificuldade de relaxar?


Medo de perder o controle?


Sensação de que precisa chegar ao orgasmo rapidamente?


Essas experiências não significam, por si só, que exista um problema.


Mas, quando causam sofrimento ou aparecem de forma repetitiva, podem ser temas importantes para explorar.


Flâmula com a palavra "Explore" sobre fundo de madeira, simbolizando a curiosidade de conhecer o próprio corpo

Masturbação e autoconhecimento não são a mesma coisa para todo mundo


É importante evitar transformar a masturbação em uma obrigação de autoconhecimento.


Algumas pessoas se masturbam com frequência.


Outras, raramente.


Algumas nunca sentem vontade.


Outras preferem não se masturbar por motivos pessoais, culturais ou religiosos.


Não existe uma frequência universalmente "normal", e ninguém precisa se masturbar para ter uma sexualidade saudável.


O ponto não é quanto você se masturba.


É entender se a sua relação com essa prática é coerente com seus desejos e valores e se existe sofrimento, perda de controle ou prejuízo associado a ela.


A masturbação pode fazer parte da terapia sexual


Talvez você se surpreenda, mas a masturbação pode fazer parte de alguns tratamentos em terapia sexual.


Em determinadas dificuldades para atingir o orgasmo, por exemplo, exercícios de exploração corporal e masturbação orientada podem ser utilizados para ajudar a pessoa a desenvolver maior consciência da própria resposta sexual.


Em outras situações, o foco pode ser diferente.


Uma pessoa que aprendeu a se masturbar sempre com muita pressa, por exemplo, pode se beneficiar de intervenções que aumentem a percepção das sensações e diminuam a urgência de chegar ao orgasmo.


Na anorgasmia, a exploração corporal pode ser uma ferramenta terapêutica importante em alguns casos.


Na ejaculação precoce, determinadas técnicas comportamentais podem ser utilizadas para aumentar a percepção das sensações que antecedem a ejaculação.


Mas é importante não transformar essas técnicas em receitas universais.


A intervenção depende da dificuldade apresentada, da história sexual e dos objetivos de cada pessoa.


Masturbação durante um relacionamento é traição?


Essa é uma dúvida bastante frequente.


Algumas pessoas se sentem ameaçadas ao descobrir que o parceiro ou a parceira se masturba.


Outras sentem culpa por continuar se masturbando depois de começar um relacionamento.


Mas masturbação e sexo a dois não são necessariamente experiências concorrentes.


A masturbação pode ter funções diferentes: prazer, relaxamento, curiosidade, exploração corporal, regulação de tensão ou simplesmente uma experiência sexual individual.


Isso não significa, automaticamente, falta de desejo ou insatisfação com o parceiro.


Ao mesmo tempo, cada relacionamento estabelece seus próprios acordos.


Se a masturbação está associada a pornografia, por exemplo, o casal pode ter limites e expectativas diferentes sobre esse comportamento.


O mais importante é não presumir que exista uma regra universal.


Quando o tema provoca insegurança, o caminho mais útil costuma ser conversar sobre o significado que a masturbação tem para cada um.


Casal deitado na cama, abraçado e sorrindo, em um momento de intimidade e cumplicidade

Quando a masturbação merece atenção?


Na maioria das vezes, masturbação não é um problema.


Mas pode ser importante olhar com mais cuidado quando:

  • provoca culpa, vergonha ou angústia intensas e persistentes;

  • é utilizada de maneira quase automática para lidar com ansiedade, tristeza, solidão ou tédio;

  • existe sensação de perda de controle;

  • interfere no trabalho, no sono, nos relacionamentos ou em outras áreas da vida;

  • se torna uma das principais formas de evitar situações que a pessoa gostaria de enfrentar;

  • está associada a comportamentos sexuais que geram sofrimento;

  • a pessoa percebe uma dificuldade persistente de responder a outros tipos de estímulo e isso começa a interferir na vida sexual.


Nesse último caso, é importante evitar conclusões precipitadas.


Ter preferência por determinado tipo de estímulo durante a masturbação não significa que o corpo esteja "condicionado" ou "acostumado demais".


Mas, em algumas pessoas, padrões muito específicos de estimulação podem se tornar relevantes quando existe dificuldade de excitação ou orgasmo com um parceiro.


O contexto clínico é o que ajuda a entender o significado disso.


E quando consigo ter prazer sozinho, mas não com meu parceiro?


Essa é uma questão importante.


Algumas pessoas conseguem atingir o orgasmo com facilidade durante a masturbação, mas têm dificuldade durante o sexo com outra pessoa.


Isso pode acontecer por diferentes motivos.


A masturbação oferece controle sobre ritmo, pressão, estímulo e duração. Durante o sexo a dois, entram outras variáveis: comunicação, atenção ao parceiro, expectativa, ansiedade, vergonha, posição corporal e tipo de estímulo.


Em alguns casos, a pessoa também passa a monitorar o próprio desempenho:


"Será que vou conseguir?"


"Ela está esperando que eu chegue ao orgasmo."


"Estou demorando demais."


"Por que sozinho é tão fácil?"


Quando isso acontece, a atenção pode se afastar das sensações e se concentrar na avaliação.


Por isso, conseguir se masturbar não significa que a sexualidade individual e a sexualidade a dois precisem funcionar exatamente da mesma maneira.


No artigo Por que consigo ter ereção sozinho, mas não com minha parceira?, explico mais sobre como contexto, ansiedade e expectativa podem interferir na resposta sexual.


O que costumo observar no consultório


Muitas pessoas chegam à terapia dizendo:


"Eu nunca aprendi a conhecer meu próprio corpo."


Algumas nunca se masturbaram.


Outras se masturbam, mas sempre com pressa e culpa, como se precisassem terminar rapidamente e esconder aquilo de si mesmas.


Também existem pessoas que conseguem sentir prazer sozinhas, mas ficam desconfortáveis quando precisam comunicar ao parceiro aquilo que gostam.


Em todos esses casos, a questão não é simplesmente ensinar uma técnica.


É compreender como aquela pessoa aprendeu a se relacionar com o próprio prazer.


Às vezes, isso envolve crenças sobre sexualidade.


Em outras situações, envolve vergonha corporal, medo de julgamento, ansiedade, necessidade de controle ou dificuldade de se permitir sentir prazer.


Como a terapia pode ajudar?


A terapia sexual fundamentada na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode ajudar a explorar diferentes aspectos da relação com a masturbação e com o próprio prazer.


O trabalho pode envolver:

  • identificar crenças e regras aprendidas sobre masturbação e sexualidade;

  • compreender a origem e a manutenção de culpa ou vergonha;

  • observar pensamentos automáticos relacionados ao prazer;

  • ampliar a consciência das próprias sensações e preferências;

  • trabalhar padrões de pressa, evitação ou monitoramento;

  • avaliar comportamentos que a pessoa percebe como difíceis de controlar;

  • integrar o autoconhecimento corporal à comunicação sexual com o parceiro ou a parceira.


Quando necessário, o trabalho também pode envolver outras dimensões da sexualidade, como desejo, excitação, orgasmo, dor sexual ou ansiedade de desempenho.


Em resumo


✔ A masturbação é uma prática sexual comum e, de modo geral, não faz mal.

✔ Não existe uma frequência universalmente "normal" de masturbação.

✔ Ela pode ser uma oportunidade de conhecer melhor o próprio corpo e perceber como a excitação acontece.

✔ Masturbação durante um relacionamento não significa, necessariamente, falta de desejo ou insatisfação com o parceiro.

✔ O modo como uma pessoa se masturba pode trazer pistas sobre sua relação com prazer, culpa, vergonha, pressa ou controle.

✔ Quando existe perda de controle, sofrimento ou impacto significativo na vida sexual ou cotidiana, vale investigar o que está acontecendo.


Um convite à reflexão


Talvez você tenha chegado até aqui se perguntando:


"Masturbação é certa ou errada?"


Uma pergunta que talvez ajude mais seja:


"O que a forma como eu me relaciono com o meu próprio prazer diz sobre a maneira como aprendi a viver a minha sexualidade?"


Talvez você descubra que existe culpa onde deveria existir curiosidade.


Ou que existe pressa onde poderia existir presença.


Ou simplesmente perceba que nunca teve espaço para conhecer o próprio corpo sem julgamento.


Não existe obrigação de se masturbar.


Mas também não é preciso tratar o próprio corpo como um território proibido.


Perguntas frequentes


Existe uma frequência "normal" de masturbação?


Não existe um número universalmente considerado normal.

A frequência varia bastante entre pessoas e ao longo da vida.


Mais importante do que contar quantas vezes você se masturba é observar se a prática é compatível com seus desejos e valores e se está associada a sofrimento, perda de controle ou prejuízo em outras áreas.


Masturbação pode causar ejaculação precoce?


A masturbação, por si só, não causa ejaculação precoce.


Porém, o modo como uma pessoa aprendeu a se masturbar pode fazer parte da história sexual que precisa ser compreendida.


Por exemplo, alguém que se masturbou durante muitos anos sempre com muita pressa, buscando chegar ao orgasmo rapidamente, pode ter desenvolvido um padrão de resposta que merece ser explorado quando existe dificuldade para controlar a ejaculação.


Isso não significa que a masturbação seja a causa do problema.


Masturbação pode causar disfunção erétil?


A masturbação, por si só, não causa disfunção erétil.


Em alguns casos, porém, uma preferência muito específica de estimulação, desenvolvida ao longo dos anos, pode fazer com que outros tipos de toque produzam, inicialmente, uma resposta menos previsível.


Isso não significa que a pessoa tenha "estragado" a própria sexualidade.


E, quando a dificuldade de ereção é persistente, uma avaliação médica também é importante, porque fatores físicos podem estar envolvidos.


É normal nunca ter se masturbado?


Sim. Algumas pessoas simplesmente não têm interesse ou desejo de se masturbar.


Outras foram criadas em contextos nos quais o tema era associado a culpa ou proibição.


Não se masturbar não significa, por si só, que exista um problema sexual.


Se, porém, essa experiência gera sofrimento, curiosidade ou dificuldade de conhecer o próprio corpo, o tema pode ser explorado em terapia.


Mulheres se masturbam?


Sim. A masturbação feminina também faz parte da sexualidade, embora historicamente tenha sido mais silenciada e cercada de julgamentos.


A frequência e a forma variam muito entre mulheres, assim como acontece na masturbação masculina.


Mais importante do que comparar comportamentos é compreender a relação de cada pessoa com o próprio desejo e prazer.


Masturbação diminui o desejo pelo parceiro?


Não necessariamente.


A masturbação e o sexo a dois podem cumprir funções diferentes e podem coexistir.


Se existe uma mudança importante no desejo pelo parceiro, porém, vale investigar o contexto: relacionamento, estresse, saúde, medicamentos, ansiedade, depressão, dinâmica sexual e outros fatores podem participar dessa mudança.


Um espaço sem julgamento


Se a masturbação — ou a ausência dela — tem provocado dúvidas, culpa, vergonha ou dificuldades na sua vida sexual, a terapia pode ser um espaço para compreender esse tema com mais tranquilidade.


O objetivo não é ensinar uma maneira "certa" de viver a sexualidade.


É ajudar você a compreender melhor o próprio corpo, suas crenças, seus desejos e a forma como se relaciona com o prazer.


Entre em contato e agende uma consulta. Atendimento 100% online, em português, para pacientes no Brasil e no mundo.


Referências

  • American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). American Psychiatric Association.

  • American Sexual Health Association. (n.d.). Celebrating sexual pleasure [Let's Talk Pleasure]. https://www.ashasexualhealth.org/lets-talk-pleasure/

  • Coleman, E. (2003). Masturbation as a means of achieving sexual health. Journal of Psychology & Human Sexuality, 14(2–3), 5–16. https://doi.org/10.1300/J056v14n02_02

  • Hall, K. S. K., & Binik, Y. M. (Eds.). (2020). Principles and Practice of Sex Therapy (6th ed.). Guilford Press.

  • Leiblum, S. R., & Rosen, R. C. (Eds.). (2007). Principles and Practice of Sex Therapy (4th ed.). Guilford Press.

  • World Association for Sexual Health. (2019). Declaration of Sexual Rights. World Association for Sexual Health.


Este texto tem caráter informativo e não substitui uma avaliação psicológica individualizada.

 
 
 

Comentários


site-carolina-braz-2-edited.png.webp

CRP 04/51243

ENTRE EM CONTATO

(+55) 31 97120-0989

Atendimento 100% online, em português, para pacientes no Brasil e no mundo todo.

bottom of page