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Quando um quer mais sexo do que o outro: como lidar com a diferença de desejo no relacionamento

Foto do escritor: Carolina Braz
Carolina Braz
14 de mai.
8 min de leitura
Casal distante na cama por diferença de desejo sexual

Uma das perguntas que mais escuto no consultório costuma vir carregada de culpa:


"É normal eu querer sexo com uma frequência diferente da do meu parceiro?"


Às vezes, quem faz essa pergunta é a pessoa que gostaria de ter mais relações sexuais e sente que está sendo constantemente rejeitada.


Em outras situações, é justamente quem tem menos desejo e começa a acreditar que existe algo de errado consigo.

Independentemente de qual lado você ocupa nessa história, existe uma boa chance de que ambos estejam sofrendo.


E talvez a primeira notícia importante seja esta:


Ter níveis diferentes de desejo sexual é muito mais comum do que a maioria dos casais imagina.


Na verdade, depois de alguns anos de relacionamento, é quase esperado que duas pessoas apresentem ritmos diferentes de desejo em determinados momentos da vida.


O problema, geralmente, não é a diferença.


O problema é o significado que o casal atribui a ela.


Quando a diferença de desejo deixa de ser apenas uma diferença


Imagine um casal em que uma pessoa gostaria de ter relações sexuais três vezes por semana, enquanto a outra sente vontade uma vez a cada quinze dias.


Nenhuma dessas frequências é, por si só, certa ou errada.


Ainda assim, essa diferença pode gerar sofrimento.


Quem deseja mais pode começar a interpretar as recusas como falta de amor, perda de interesse ou rejeição.


Quem deseja menos pode sentir culpa, pressão e medo de decepcionar o parceiro.


Sem perceber, ambos deixam de falar sobre desejo e passam a discutir sobre quem está certo.


A conversa deixa de ser:


"Como podemos cuidar da nossa vida íntima?"


E passa a ser:


"Quem é o problema desta relação?"


Essa mudança de perspectiva costuma aumentar ainda mais a distância entre o casal.


Desejo sexual não funciona como um interruptor


Existe uma ideia bastante difundida de que o desejo sexual deveria surgir espontaneamente, como se bastasse olhar para o parceiro para que a vontade de fazer sexo aparecesse.


Na realidade, o desejo humano é muito mais complexo.


Ele é influenciado por fatores físicos, emocionais, relacionais e contextuais.


Uma mesma pessoa pode experimentar níveis completamente diferentes de desejo ao longo da vida.


Mudanças hormonais, nascimento dos filhos, excesso de trabalho, ansiedade, conflitos no relacionamento, problemas financeiros, qualidade do sono, uso de medicamentos e até a forma como o casal tem convivido nos últimos meses podem influenciar diretamente a vida sexual.


Por isso, quando um dos parceiros percebe uma redução do desejo, a pergunta mais útil raramente é:


"O que há de errado comigo?"


Talvez seja:


"O que mudou na minha vida?"


Nem todo desejo acontece da mesma maneira


Um dos avanços mais importantes da ciência da sexualidade nas últimas décadas foi mostrar que nem todas as pessoas experimentam o desejo da mesma forma.


Algumas sentem vontade de fazer sexo antes mesmo de qualquer estímulo físico ou emocional.


Chamamos isso de desejo espontâneo.


Outras começam a sentir desejo apenas depois que a intimidade já começou.


Um abraço demorado.


Um beijo.


Uma conversa agradável.


Um momento de carinho.


Nesse caso, o desejo surge como resposta à experiência.


Esse padrão, conhecido como desejo responsivo, é extremamente comum,

especialmente em relacionamentos longos.


No entanto, muitas pessoas nunca ouviram falar sobre ele.


Como consequência, passam a acreditar que perderam completamente a libido quando, na verdade, apenas experimentam o desejo de uma forma diferente.


Casal evitando demonstrações de carinho por pressão sexual

O ciclo da pressão


Quando a diferença de desejo permanece por muito tempo sem ser conversada, costuma surgir um ciclo bastante previsível.


Quem deseja mais começa a insistir.


Quem deseja menos sente pressão.


Quanto maior a pressão, menor tende a ser o desejo.


Quanto menor o desejo, maior a insistência.


Pouco a pouco, o sexo deixa de representar conexão e passa a representar obrigação.


Em alguns casais, basta um beijo mais demorado para que um dos parceiros pense:


"Será que ele está esperando que isso termine em sexo?"


Essa antecipação pode fazer com que até demonstrações simples de carinho sejam evitadas.


Sem perceber, o casal perde não apenas a frequência das relações sexuais, mas também outras formas de intimidade.


O problema raramente é apenas sexual


Quando conversamos sobre desejo, é comum imaginar que tudo acontece dentro do quarto.


Na prática, a vida sexual costuma refletir a forma como o casal tem vivido o relacionamento como um todo.


Sentimentos de sobrecarga, ressentimentos antigos, dificuldades de comunicação, falta de tempo para o casal, excesso de responsabilidades e distanciamento emocional frequentemente aparecem junto com a queixa sexual.


Isso não significa que toda dificuldade de desejo seja causada pelo relacionamento.


Mas significa que olhar apenas para o sintoma costuma ser insuficiente.


A sexualidade faz parte da história daquele casal.


E é dentro dessa história que ela precisa ser compreendida.


Quando a rejeição dói mais do que a falta de sexo


Para quem deseja mais relações sexuais, ouvir um "não" repetidamente pode ser muito doloroso.


Com o tempo, algumas pessoas deixam de interpretar essa resposta como uma recusa circunstancial e passam a enxergá-la como uma rejeição pessoal.


Surgem pensamentos como:


"Será que meu parceiro não me acha mais atraente?"


"Será que ele deixou de me amar?"


"Será que existe outra pessoa?"


Essas interpretações são compreensíveis, mas nem sempre correspondem à realidade.


Em muitos casos, a diminuição do desejo está relacionada a fatores completamente diferentes: estresse, exaustão, ansiedade, sobrecarga mental, conflitos não resolvidos, alterações hormonais, uso de medicamentos ou simplesmente uma forma diferente de experimentar o desejo.


Quando não conversamos sobre essas possibilidades, a mente tende a preencher as lacunas com as explicações mais dolorosas.


E quem sente menos desejo também costuma sofrer


Existe um equívoco bastante comum: imaginar que apenas quem deseja mais sexo sofre.


Na prática clínica, observo que muitas pessoas que apresentam menor desejo convivem diariamente com culpa.


Elas gostariam de corresponder às expectativas do parceiro, mas não conseguem simplesmente "ligar" o desejo quando querem.


Algumas chegam a dizer:


"Eu queria querer mais."


Essa frase costuma revelar algo importante.


Na maioria das vezes, não existe falta de amor.


Existe sofrimento.


Quando o desejo passa a ser tratado como uma obrigação, ele frequentemente se afasta ainda mais.


Afinal, poucos aspectos da vida humana florescem sob pressão constante.


O impacto das cobranças


Quando a diferença de desejo persiste por muito tempo, é natural que ambos tentem resolver o problema.


O desafio é que muitas das estratégias utilizadas acabam produzindo o efeito contrário.


Cobranças.


Ironias.


Comparações.


Discussões frequentes.


Silêncio.


Afastamento.


Embora surjam da tentativa de mudar a situação, esses comportamentos costumam aumentar a tensão emocional do casal.


A pessoa que deseja menos passa a associar qualquer aproximação física à possibilidade de uma nova cobrança.


Quem deseja mais sente que precisa insistir para que algo aconteça.


Pouco a pouco, ambos deixam de vivenciar a intimidade como um espaço de espontaneidade.


Ela passa a ser um campo de negociação.


O que costuma fortalecer o desejo nos relacionamentos duradouros?


Essa é uma pergunta muito mais útil do que:


"Quem está certo?"


As pesquisas mostram que o desejo sexual em relacionamentos longos costuma ser influenciado por fatores como:

  • sensação de segurança emocional;

  • admiração mútua;

  • comunicação aberta;

  • momentos de intimidade não necessariamente sexual;

  • qualidade da relação fora do quarto;

  • equilíbrio entre rotina e novidade;

  • percepção de parceria.


Isso significa que o desejo não depende apenas da atração física.


Ele também é alimentado pela forma como o casal se relaciona no dia a dia.


É claro que não existe uma receita universal.


Cada casal constrói sua própria dinâmica.


Mas compreender que o desejo é influenciado pelo contexto costuma diminuir bastante a culpa.


O papel da comunicação


Quando pergunto aos casais há quanto tempo esse assunto se tornou um problema, muitas vezes escuto respostas como:


"Há dois anos."


"Desde o nascimento dos filhos."


"Depois que comecei naquele emprego."


Em seguida faço outra pergunta:


"E quando vocês conversaram sobre isso pela última vez sem discutir?"


Frequentemente, a resposta é um longo silêncio.


Falar sobre sexualidade não costuma ser fácil.


Muitas pessoas têm medo de magoar o parceiro.


Outras receiam parecer carentes, exigentes ou inadequadas.


Mas existe uma diferença importante entre conversar sobre o problema e discutir por causa dele.


Conversar é tentar compreender.


Discutir costuma ser tentar convencer.


Quando o casal consegue abandonar a lógica de encontrar um culpado e passa a investigar o que está acontecendo com curiosidade e respeito, novas possibilidades aparecem.


O que costumo observar no consultório


Uma das mudanças mais bonitas que acompanho acontece quando o casal percebe que está lutando contra o problema — e não um contra o outro.


Parece uma diferença pequena.


Mas ela transforma completamente a conversa.


Em vez de:


"Você nunca me procura."


A pergunta passa a ser:


"O que está dificultando nossa conexão neste momento da vida?"


Em vez de:


"Você só pensa em sexo."


Surge:


"Como podemos construir uma vida íntima que faça sentido para nós dois?"


Essa mudança reduz a defensividade e cria espaço para colaboração.


Nem sempre ela resolve imediatamente a diferença de desejo.


Mas costuma transformar profundamente a forma como o casal enfrenta essa diferença.


Casal conversando com mais proximidade e escuta

Como a terapia pode ajudar?


Não existe um número "correto" de relações sexuais para um casal saudável.


O objetivo da terapia não é fazer com que ambos desejem exatamente a mesma frequência.


O trabalho consiste em compreender o significado daquela dificuldade e ajudar o casal a construir acordos que respeitem as necessidades de ambos.


Durante esse processo, investigamos fatores emocionais, relacionais, contextuais e, quando necessário, orientamos também a avaliação médica.


Além disso, desenvolvemos habilidades de comunicação, trabalhamos expectativas irreais sobre sexualidade e ajudamos o casal a recuperar outras formas de intimidade que muitas vezes foram sendo perdidas ao longo do tempo.


Perguntas frequentes


É normal que o desejo diminua com o tempo?

Sim. O desejo sexual costuma oscilar ao longo da vida e pode ser influenciado por mudanças na saúde, no trabalho, no relacionamento, na rotina e em diversos outros fatores.


Existe uma frequência "normal" para fazer sexo?

Não. Não há uma frequência considerada ideal para todos os casais. O mais importante é que ambos consigam conversar sobre suas necessidades e encontrem uma dinâmica que seja satisfatória para a relação.


Ter menos desejo significa amar menos?

Não. Desejo sexual e amor são experiências relacionadas, mas diferentes. Muitas pessoas continuam profundamente apaixonadas mesmo atravessando períodos de menor interesse sexual.


Quando vale procurar ajuda?

Quando a diferença de desejo começa a gerar sofrimento, conflitos frequentes, afastamento emocional ou impacto significativo na qualidade do relacionamento.


Em resumo


Vale lembrar algumas ideias importantes:


✔ Diferenças de desejo são comuns nos relacionamentos.


✔ O sofrimento costuma surgir menos da diferença em si e mais da forma como ela é interpretada e administrada.


✔ Cobranças e pressão raramente aumentam o desejo. Em muitos casos, produzem o efeito contrário.


✔ Comunicação, compreensão e colaboração costumam ser caminhos muito mais eficazes.


✔ Não existe um casal "normal". Existe um casal que consegue construir acordos saudáveis para a sua própria realidade.


Um convite à reflexão


Talvez você tenha iniciado este capítulo tentando descobrir quem está certo na relação.


Quem deseja mais.


Ou quem deseja menos.


Espero que, ao chegar até aqui, tenha percebido que essa talvez não seja a pergunta mais importante.


Uma relação íntima não se fortalece quando um dos parceiros vence uma discussão.


Ela se fortalece quando ambos conseguem olhar para a dificuldade como um desafio compartilhado.


A diferença de desejo não precisa transformar o casal em adversários.


Ela pode, inclusive, se tornar uma oportunidade para conhecer melhor um ao outro, rever expectativas, fortalecer o diálogo e construir uma intimidade mais consciente e respeitosa.


Nem sempre isso acontece sozinho.


E não há problema algum em buscar ajuda quando o sofrimento começa a ocupar um espaço maior do que o carinho.


Se você e seu parceiro reconhecem esse padrão, entre em contato e agende uma consulta. Atendimento psicológico 100% online, em português, para pacientes no Brasil e no mundo todo.


Referências


  • Mark, K. P. (2012). The relative impact of individual sexual desire and couple desire discrepancy on satisfaction in heterosexual couples. Sexual and Relationship Therapy, 27(2), 133–146.

  • Davies, S., Katz, J., & Jackson, J. L. (1999). Sexual desire discrepancies: Effects on sexual and relationship satisfaction in heterosexual dating couples. Archives of Sexual Behavior, 28(6), 553–567.

  • Nagoski, E. (2021). Come as You Are (revisado). Embora seja um livro voltado ao público geral, ajudou a popularizar conceitos respaldados pela literatura científica, como o desejo responsivo, tornando-os mais acessíveis para pacientes e profissionais.


Este texto tem caráter informativo e não substitui uma avaliação psicológica individualizada.

 
 
 

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